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Polarização motiva aumento dos ataques à imprensa

Agressões, ofensas e processos acompanham o trabalho profissional dos jornalistas brasileiros; professor da Unit ressalta importância da imprensa livre para a democracia

às 16h15
Agressões físicas e verbais a profissionais de imprensa ficaram mais frequentes nos últimos anos (Paulo Pinto/AGPT/Agência Senado)
Agressões físicas e verbais a profissionais de imprensa ficaram mais frequentes nos últimos anos (Paulo Pinto/AGPT/Agência Senado)
O professor Roberto Amorim, coordenador dos cursos de Jornalismo e Publicidade da Unit Alagoas
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O Brasil vem sendo enquadrado nos últimos anos entre os países com menor liberdade de imprensa nas Américas. O ranking mais recente divulgado pela ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF) apontou que nosso país está em 111º lugar na Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa, caindo quatro posições em relação à lista do ano passado. No continente, é a pior menor posição neste quesito, superando apenas países como Cuba, Venezuela, México e Guatemala. Entre as principais causas, estão as agressões físicas, ataques verbais e processos judiciais sofridos pelos repórteres em decorrência do exercício da profissão. 

O professor Roberto Amorim, coordenador do curso de Jornalismo e Publicidade do Centro Universitário Tiradentes (Unit Alagoas), explica que a imprensa de um país se caracteriza como livre quando os jornalistas dispõem de livre acesso a fontes, pessoas e documentos, podendo publicar livremente as informações apuradas, sem qualquer tipo de censura ou impedimento. 

Amorim cita como exemplo uma decisão recente da Polícia Civil do Rio de Janeiro, que colocou sob sigilo de cinco anos toda a documentação relativa a operações policiais realizadas pelo órgão, em meio às investigações sobre a operação policial que deixou 29 mortos na Favela do Jacarezinho, no Rio, em maio deste ano. “Isso é uma forma de atrapalhar o trabalho do repórter. É necessário que a gente tenha, enquanto jornalista, total acesso às fontes, sejam documentos, relatórios, estudos e que não tenha qualquer censura em relação a circulação dessa informação, que ela não seja distorcida, que ela não seja bombardeada, que ela não seja desacreditada por outros mecanismos”, definiu.

Segundo o professor, este cenário sempre acompanhou a imprensa brasileira ao longo da história, mas tem se acirrado nos últimos anos, por força da polarização política e ideológica no país. “Essa hostilidade à imprensa sempre existiu. Era institucional, do ponto de vista da censura, como foi no Brasil Colônia, depois no Brasil Império e nas ditaduras. O que está havendo agora é uma visibilidade maior dessas estratégias e formas de agressão à imprensa, seja ela física ou no sentido de podar o trabalho dos profissionais. As pessoas que não estão de acordo com o que é informado a partir de certos veículos vão desde dar descrédito àquela informação, criando fake news em relação a esses fatos e às pessoas que são produtoras desses fatos, até agressões físicas, que é o descontrole geral mesmo”, relata Roberto.

Imparcialidade e credibilidade

Muitos desses ataques são atribuídos ao desconhecimento que boa parte da população tem a respeito dos processos de produção e funcionamento do jornalismo e dos meios de comunicação. Isso pode se perceber a partir de cobranças e acusações a respeito da imparcialidade dos jornalistas e dos veículos de imprensa. “Credibilidade e imparcialidade são dois conceitos que recebem muitos muitos olhares e muitas interpretações. Um lado vai acusar o outro de ser imparcial e não ter credibilidade a partir do seu ponto de vista, a partir da narrativa, a partir do seu olhar enquanto sujeito. O que a imprensa deve fazer nesse sentido é buscar ao máximo as informações exatas”, pontua Amorim, sobre o desafio do jornalismo profissional. 

O professor explica ainda que o jornalismo se divide em três grandes vertentes: a informativa (relato objetivo do fato), a investigativa (o que está por trás do fato) e a opinativa (interpretação e opinião sobre o fato). “Pode-se ou não concordar. Todo fato pode ser visto a partir de um ângulo e nenhum fato é uno na sua forma”, diz ele, explicando que as empresas de comunicação e os profissionais em si também têm interesses, visões e concepções de mundo distintas. A democracia está assentada justamente na pluralidade de ideias, visões e concepções de mundo, e no princípio de que todos têm o direito de defender e expor livremente essas ideias. 

E essa pluralidade é garantida através das liberdades de expressão, opinião e imprensa, garantidas pelo Artigo 220 da Constituição Federal de 1988. Para Roberto Amorim, não existe democracia sem imprensa livre e é através dela que o cidadão tem conhecimento dos fatos para formar suas opiniões. É preciso que todo cidadão tenha acesso aos fatos, para que ele possa interpretar esses fatos e formar sua opinião. Na obscuridade, na penumbra, é possível fazer várias artimanhas e não existe a menor possibilidade de eu, enquanto cidadão, me posicionar sobre qualquer fato, se eu não tenho acesso aos fatos reais que aconteceram. E se a imprensa é impedida de fazer isso, como saberemos o que realmente aconteceu, pra daí tomarmos alguma atitude enquanto cidadão?”, defende o jornalista. 

Asscom | Grupo Tiradentes 

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