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Dia Nacional da Visibilidade Trans encerra programações do mês de janeiro

Aluno e professora falam sobre a importância da data

às 15h07
O Centro Universitário Tiradentes – Unit AL apoia e respeita toda forma de manifestação étnica, cultural e de gênero e todos os anos realiza programações especiais para disseminar tolerância e empatia diante da realidade de milhões de brasileiros. Na última terça-feira, 29, comemora-se o Dia Nacional da Visibilidade Trans, uma data representativa e repleta de significado, marco por uma luta diária e necessária.
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Foi em 29 de janeiro de 2004, que homens trans, mulheres transexuais e travestis foram até Brasília lançar a campanha “Travesti e Respeito”, que objetiva promover a cidadania e o respeito entre as pessoas e que mostrasse a relevância de suas ações no Congresso Nacional. Esse foi o primeiro ato nacional organizado por trans, o que gerou grande repercussão, gerando diversas manifestações e passeatas ano após ano para fortalecer e reafirmar a importância de cada uma dessas vidas. 

A Assistente Social e professora Dra. Silmara Mendes fala sobre a importância do Dia Nacional da Visibilidade Trans. “O dia da visibilidade Trans marca a luta e a resistência da população Transexual em comemoração ao dia 29 de janeiro de 2004 em que mulheres transexuais, homens trans e travestis se reuniram em Brasília para o lançamento a Campanha “Travesti e Respeito”, com o objetivo de promover a cidadania e respeito da população Trans. É importante destacar que a população LGBT é historicamente alvo de violência por se distanciar da heterossexualidade, considerada a orientação sexual aceita socialmente, sendo brutalmente negada qualquer orientação sexual distinta. O entendimento de que esse padrão de orientação sexual socialmente aceito deve ser o único, gera intolerância e a Transfobia que corresponde à violência que mata a cada 48 horas uma pessoa trans, de acordo com o Mapa dos Assassinatos de Travestis e Transexuais de 2017”.

Silmara conta que além das violações de direitos cometidos diretamente contra travestis e transexuais em espaços púbicos e privados.  As entidades de defesa dos direitos LGBT afirmam que o Brasil é o país em que mais ocorrem assassinatos  de LGBT, segundo Cisne e Santos (2018), nas particularidade dos travestis e transexuais, dos 445 assassinatos de 2017, 191 foram de pessoas trans, 43 lésbicas e 5 bissexuais. Muitos desses crimes são realizados de forma violenta, com requinte de crueldade, utilização de armas brancas, apedrejamento, degolamento e desconfiguração da face. Diante desse cenário de barbarização da vida dos que integram a população LGBT, em especial os Trans, cabe a nós nos posicionarmos em defesa da vida do gênero humano de qualquer cor, raça, sexo e idade, dando destaque ao dia da visibilidade Trans, porém transformando essa luta numa prática cotidiana.

Após anos de luta a sociedade ainda não entendeu o quanto respeito e tolerância são importantes na conquista de direitos. “Essa população luta pelo direito de existir, ser respeitada, não ser vitima de preconceito e discriminação. Apesar das conquistas importantes na judicialidade referentes ao universo LGBT, a realidade evidência que a violência contra essa população é uma prática que integra os “crimes de ódio”.  Segundo Santos, 2005, “os  ‘crimes de ódio’ integram a dimensão mais explícita no conjunto das expressões de violência que incide sobre as sexualidades evidenciando, além do preconceito, a brutal eliminação dos indivíduos que orientam sua vida afetivo-sexual fora da heterossexualidade”. E quanto a população tans,  o cenário ainda é mais delicado ainda, tendo em vista que além de ser vítima de violência, o indivíduo ao perceber-se de um gênero diferente do que lhe foi atribuído no nascimento, passa a enfrentar uma luta grande para assumir sua identidade, não conta com uma legislação que o proteja, não tem acesso aos serviços de saúde, encontra muitas dificuldades de ser inserida no mercado de trabalho, além da rejeição e intolerância familiar. Deste modo, é preciso compreender o universo Trans, respeitando todas as suas necessidades e garantindo  que possa assumir sua identidade”, aponta Silmara.

Benjamin Vanderlei dos Santos é Psicólogo e aluno do Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Tecnologias e Políticas Públicas, que foca seus esforços de pesquisa na linha 2 – Sociedade, Território e Políticas Públicas. Sua dissertação é voltada para os estudos de gênero e audiovisual, mais especificamente como as relações de gênero estão encenadas no seriado Mad Men e como estas se ligam ao imaginário social da cultura americana.

Ele fala sobre os desafios que enfrenta por ser um homem trans. “Ainda percebo que um dos maiores desafios é a burocracia em relação à mudança do nome e a falta da discussão sobre gênero. Mesmo tendo os meus documentos retificados, as pessoas que ainda estão fazendo a mudança enfrentam uma quantidade enorme de constrangimentos, principalmente nos cartórios, alguns inclusive como não podem recusar, criam uma burocracia desnecessária para que as pessoas desistam, cobrando até taxas abusivas. Além disso, a falta de discussão sobre gênero nas escolas e principalmente, no ensino superior é um entrave. As pessoas ainda mantêm a discussão sobre gênero num nível muito raso, de modo que as ideias de masculino e feminino continuam com um caráter altamente conservador. Por conta disso, travestis e transexuais passam por situações como a falta de respeito ao próprio nome dentro das universidades e escolas”.   

Ele finaliza deixando uma reflexão para a sociedade. “Nós somos um dos países que mais mata pessoas travestis e transexuais, então o direito fundamental que ainda é preciso brigar é pela própria vida, pelo direito de não ser morto por ser quem é. Conheço pessoas que batalham diariamente contra o preconceito e não é fácil, então sei que é não por falta de vontade, por falta de militância, mas pelas próprias instituições sociais. Celebrar o dia 29 é celebrar com os pés no chão. É sabendo o quanto ainda incomoda quando travestis e transexuais ocupam espaços de sala de aula, quando batalham por empregos que não se resumam a prostituição. Por isso é preciso continuar incomodando. Isso é resistência”.  

“Não podemos permitir que haja um  recrudescimento do conservadorismo contra a população LGBT no Brasil, assim como é importante a integração de toda a sociedade nessa luta, em busca de legislações adequadas para punir práticas e discursos de ódio aos que disseminam  a reprodução do  preconceito e discriminação. É preciso defender o direito à diversidade sexual, garantindo o acesso da população LGBT aos diversos espaços de vivências, desde a família até o mercado de trabalho, em especial da população Trans e acima de tudo,  é necessário a existência de políticas públicas, respeitando às diferenças, assim como discussões  e pesquisas na acadêmica para o rompimento da cultura de violência contra uma população, que além do direito de existir, tem o direito de viver dignamente e assumir sua identidade livremente”, conclui Silmara.

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