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De unissensorial a multissensorial, os novos caminhos do rádio

A linguagem do rádio se adapta constantemente, passou pela televisão e segue firme na internet criando novas versões de si mesmo

às 17h27
Transmissão em áudio e vídeo do programa A Voz do Brasil, da Rádio Nacional de Brasília, no ar desde 1939: adaptação aos novos tempos (Reprodução/EBC)
Transmissão em áudio e vídeo do programa A Voz do Brasil, da Rádio Nacional de Brasília, no ar desde 1939: adaptação aos novos tempos (Reprodução/EBC)
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Assim como todos os outros meios de comunicação, o rádio tem se adaptado às novas tecnologias e tem um futuro considerado promissor. A primeira transformação aconteceu com a chegada da televisão, na década de 1950, quando, por não haver no Brasil profissionais da área para operar os equipamentos de TV, os atores, cantores e técnicos foram aproveitados. Era como se fosse o “rádio com imagem”. Mas a chegada da internet veio como um desafio, pelas transformações nas linguagens propostas

A professora Juliana Almeida, dos cursos de Comunicação Social da Universidade Tiradentes (Unit Sergipe), acredita que o rádio, enquanto meio de comunicação, tem se beneficiado com essas mudanças e com o conteúdo multiplataforma exigido pelos meios digitais. “Por vários motivos. Um deles devo frisar que é uma coisa extremamente importante: é porque muda completamente a característica da linguagem sonora, caracterizada no rádio pela efemeridade. Por ser passageira, as pessoas precisam estar ouvindo naquele momento, senão perdem a informação. Esse é o primeiro ponto”, assegura. 

Com a internet não precisando de dia, hora e local para ser acessada atualmente, vem a perenidade, uma vez que, para Juliana, “a internet faz com que a linguagem radiofônica mude e se torne perene”, isto é, atemporal. “O benefício chega justamente na parte dos podcasts, que libera o ouvinte daquela obrigatoriedade de estar, naquele momento determinado, tendo de ouvir o rádio. Ele pode ouvir o conteúdo produzido em qualquer tempo. Lógico que a dinâmica do podcast é diferente das transmissões radiofônicas, mas não muda esse benefício”, explica Juliana. 

A professora, que também é pesquisadora em rádio, destaca que ainda é um alto investimento transformar os programas de rádio em multiplataformas e, por isso, nem todas as emissoras estão presentes nos diversos meios, mas é necessário que se esteja principalmente em redes sociais. “É impossível pensar em qualquer meio de comunicação que não tenha essa projeção na internet. Especialmente pela questão da perenidade da linguagem”, reforça. 

Se a linguagem era efêmera, passageira, característica das emissoras de rádio, hoje não. O ouvinte está livre para que possa ter acesso àquele conteúdo na hora ele quiser, reitera. “Além disso, o rádio passa a ter ‘cara’. As transmissões pelas redes sociais, pelas mídias sociais, especialmente pelo YouTube, contém imagens e são transmissões com cada vez mais sucesso, porque dá a possibilidade do ouvinte entrar e descobrir esse imaginário sonoro que é o rádio”, argumenta. 

O rádio provoca a imaginação, quem nunca imaginou como eram os locutores de rádio preferidos? Como eles eram em sua aparência, gestual e forma de falar? Ao ouvir o rádio formamos imagens mentais sobre quem é o que se está falando. “O rádio é um meio unissensorial, quando ouvimos apenas sons temos a tendência de imaginar aquelas situações que estamos ouvindo. Então, o fato de fazer transmissões das apresentações dos programas, por mais que seja no estúdio, parado, já dá uma outra dinâmica em termos de produção, apresentação e mesmo na experiência do consumidor da informação”.

Rádio em várias plataformas

Todos os brasileiros nascidos há, no mínimo, duas décadas, conhecem a abertura de A Voz do Brasil, o programa de rádio mais antigo do país: a ópera O Guarani, composta pelo maestro Carlos Gomes (1836-1896), seguida de uma voz empostada: “Em Brasília, dezenove horas!”. 

“Hoje é possível ver A Voz do Brasil. Quem imaginava isso? A Voz do Brasil está no ar desde 1939. Hoje você pode acessar o site da Empresa Brasileira de Comunicação [EBC], da Rádio Nacional de Brasília, e ver os apresentadores num estúdio muito bonito, eles muito arrumados apresentando A Voz do Brasil”, destaca Juliana, como um exemplo dos muitos programas de rádio que já podem ser assistidos dessa forma. 

Os sites das grandes redes e emissoras de rádio já se assemelham a quaisquer outros portais, com textos, vídeos, fotos e infográfico. “Essa perspectiva multiplataforma atinge o rádio em cheio, e essa adaptação é fundamental, pois o rádio é o ‘rei dos meios de comunicação’ e é que tem de se adaptar às mudanças. Sempre decretam a morte do rádio, mas de repente ele ressurge  transformado e ocupa outros espaços”, elogia a professora da Unit. 

Mesmo nos jornais e portais de notícias, como UOL e G1, os podcasts já estão presentes, ou seja, o áudio reinventando a internet e o rádio levado a outras plataformas, como uma forma de se aproximar da juventude. “E é um nicho de mercado importante. Nos Estados Unidos, tem pessoas ganhando muito dinheiro com podcast. Aqui no Brasil, o número de ouvintes de podcasts tem crescido bastante. Inclusive, as grandes redes jornalísticas já estão apostando pesado no formato, por ser uma mídia leve, que pode ser ouvida em qualquer lugar, e levar no celular, ouvir pelo fone, não ocupa muito espaço e nem gasta muitos dados de internet como, por exemplo, um vídeo”, ressalta Juliana. 

Para a pesquisadora diz que a perspectiva de pensar a linguagem sonora a partir do conteúdo multiplataforma desconstrói o conceito de que o rádio é só som, unissensorial. “Não, o rádio agora passa a ser multissensorial também, ser o Rádio do Futuro, não só na qualidade do som, mas também no sentido de agregar outros canais e outras plataformas”, concluiu. 

Asscom | Grupo Tiradentes 

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